Vivemos em tempos onde a linha entre o comum e o extraordinário parece ter se desfeito. O que antes seria motivo de espanto ou indignação, hoje, muitas vezes, é recebido com um mero encolher de ombros. Esta é a “normalização do caos”: um fenômeno intrigante onde tudo parece estranho, mas, paradoxalmente, se torna aceitável. Caminhamos por um mundo que constantemente nos apresenta cenários surreais, mas nossa capacidade de absorvê-los e prosseguir, quase sem questionar, é o que realmente nos define nesta era.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!Quando o bizarro vira rotina: a normalização do caos
A verdade é que o conceito de “normalidade” foi radicalmente reescrito nas últimas décadas. Eventos globais – pandemias, crises climáticas cada vez mais severas, instabilidade política, avanços tecnológicos vertiginosos – não são mais incidentes isolados, mas parte de um fluxo contínuo que molda nossa percepção da realidade. O que antes seria impensável, um roteiro de ficção científica ou um pesadelo distante, agora se desenrola diante dos nossos olhos nas manchetes diários e nas nossas próprias vidas.
Essa exposição constante e ininterrupta ao que antes era considerado bizarro ou extremo fez com que nossa régua de medição se alterasse. A “nova normalidade” não é apenas uma adaptação a novas circunstâncias, mas uma redefinição do que consideramos aceitável ou expectável. Aprendemos a viver com a incerteza como companheira, a navegar por paisagens sociais e políticas que mudam drasticamente de um dia para o outro, e a integrar o caos como um elemento intrínseco ao nosso cotidiano.
A insensibilização gradual ao absurdo diário
Um dos mecanismos mais notáveis desse processo é a nossa insensibilização. Como seres humanos, não somos capazes de manter um estado perpétuo de choque ou alarme. A exposição contínua a notícias perturbadoras, a dados alarmantes sobre o meio ambiente ou a discursos políticos extremados, inevitavelmente, leva a um embotamento emocional. É um mecanismo de defesa, talvez, para nos protegermos da sobrecarga, mas que tem um custo significativo.
O que acontece é que aquilo que em outro tempo provocaria um clamor geral, uma onda de protestos ou uma profunda reflexão, hoje mal consegue prender nossa atenção por mais de alguns minutos. As informações se sucedem em ritmo frenético, e cada novo absurdo ofusca o anterior, tornando-o parte de um ruído de fundo. Desenvolvemos uma espécie de “cegueira seletiva” ou “fadiga da compaixão”, onde o inaceitável se torna apenas mais um item na longa lista de coisas estranhas que acontecem.
Cenários do dia a dia: o estranho que não choca mais
Basta olharmos ao redor para percebermos o quão integrados estão esses cenários. Notícias sobre desastres naturais recordes, com inundações ou secas atingindo proporções jamais vistas, são comentadas por um breve período e logo substituídas. A disseminação massiva de desinformação, que antes causaria espanto pela sua audácia, agora é tratada por muitos como apenas “mais uma opinião” ou um “ângulo diferente” dos fatos, minando a própria ideia de verdade objetiva.
Da mesma forma, comportamentos e declarações de figuras públicas que, há alguns anos, resultariam em escândalos e demissões imediatas, hoje são frequentemente relativizados, justificados ou simplesmente ignorados pela maioria. Essa tolerância ampliada ao que é questionável ou eticamente duvidoso mostra o quanto nos afastamos de um padrão de exigência e crítica. O estranho não choca mais, ele apenas existe, e nós seguimos em frente.
Perdendo o senso crítico: o custo da aceitação total
O perigo inerente a essa normalização do caos reside na erosão do nosso senso crítico. Quando paramos de nos indignar com o absurdo, quando aceitamos o estranho como parte integrante da paisagem, corremos o risco de perder a capacidade de discernir o que é verdadeiramente prejudicial. A aceitação total, sem questionamento, pode levar a uma passividade perigosa, onde injustiças e desequilíbrios não são mais percebidos como problemas a serem resolvidos, mas como fatos da vida.

O custo social e individual dessa passividade é imenso. Sociedades que perdem a capacidade de se chocar e reagir ao que é errado ou injusto tendem a estagnar, ou pior, a regredir. A ausência de crítica e a resignação perante o caos podem silenciar vozes que buscam mudança, enfraquecer a accountability de instituições e líderes, e, em última instância, comprometer a própria democracia e o bem-estar coletivo.
Para além da aceitação: buscando um novo olhar crítico
Diante desse cenário, torna-se imperativo cultivar uma nova forma de olhar para o mundo, uma que transcenda a aceitação passiva. Precisamos fazer um esforço consciente para questionar, para refletir e para nos permitir sentir o desconforto quando confrontados com o que é verdadeiramente estranho ou errado. Isso significa resistir à tentação da insensibilização e buscar ativamente o entendimento e a profundidade por trás das manchetes.
Reconectar-nos com a nossa capacidade de indignação e de surpresa é fundamental. Isso envolve buscar informações de fontes diversas, engajar-nos em debates construtivos, e, acima de tudo, não ter medo de apontar o absurdo quando o vemos. Somente ao exercitar um olhar crítico renovado e ao nos recusarmos a aceitar o inaceitável como “normal” poderemos começar a desmantelar essa normalização do caos e, quem sabe, construir um futuro mais lúcido e justo.
A normalização do caos é um reflexo complexo da nossa capacidade de adaptação, mas também um alerta para os perigos da passividade. Embora seja natural que nos adaptemos ao nosso entorno, é vital que essa adaptação não nos custe o senso crítico e a capacidade de distinguir o que é aceitável do que é intolerável. É um convite para estarmos mais presentes, mais questionadores e mais engajados, para que o estranho e o absurdo não se tornem o novo padrão inquestionável de nossa existência.
A normalização do caos não se limita apenas à aceitação de situações adversas, mas também envolve uma adaptação cultural que pode banalizar comportamentos nocivos. Quando o extraordinário se torna cotidiano, as linhas que delimitam o aceitável do inaceitável se tornam difusas, gerando um ambiente propício para a impunidade e a corrupção. Nesse cenário, a vigilância social e a crítica construtiva se tornam ferramentas indispensáveis para a manutenção da justiça e da equidade. Portanto, é imperativo que a sociedade reforce seu compromisso com a ética e a responsabilidade, desafiando o status quo e promovendo a conscientização sobre as realidades que ameaçam seus fundamentos.






